A carreira de perito contábil vem se consolidando como uma das mais promissoras no campo da contabilidade, impulsionada pela crescente complexidade das demandas judiciais e tributárias no país. No entanto, o caminho para o sucesso na área exige mais do que formação acadêmica: requer especialização, disciplina técnica e planejamento financeiro rigoroso. Essa foi a principal mensagem destacada por André Bortolino, Ayrton Vieira de Morais e Milla Oliveira durante evento on-line promovido pelo Comitê Técnico de Assuntos Tributários (CTAT) do Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR).

Logo na abertura, a mediadora Milla Oliveira, coordenadora do CTAT, chamou atenção para o cenário desafiador enfrentado pelos profissionais contábeis, marcado por constantes mudanças legislativas e aumento da complexidade fiscal. “A gente precisa estar em ambientes de aprendizado e desenvolvimento. A legislação não está brincadeira”, destacou, ao reforçar a importância da qualificação contínua.

Entre os pontos mais relevantes debatidos, os palestrantes foram unânimes ao afirmar que a perícia contábil é uma atividade altamente técnica e que ainda carece de profissionais especializados no mercado. Segundo Ayrton Vieira de Morais, perito e Coordenador do Comitê Técnico de Perícia Contábil, que atua exclusivamente com perícia há quase uma década, há uma falsa percepção de facilidade de ingresso na área. “Hoje se vende muito a ideia de ganhos elevados, mas pouco se entrega em qualidade técnica. A perícia exige preparo, responsabilidade e conhecimento aprofundado”, alertou.

O especialista ressaltou que muitos profissionais ingressam no mercado sem a devida capacitação, acreditando que apenas o cadastro nos tribunais é suficiente para iniciar a atuação. “A formação contábil dá a base, mas é preciso lapidar com especialização. Sem isso, o profissional não consegue entregar um trabalho conclusivo e tecnicamente adequado”, afirmou.

Na mesma linha, o perito e professor André Bortolino destacou que o domínio técnico — especialmente na área tributária — pode ser um diferencial competitivo importante. Profissionais com experiência em obrigações acessórias e apuração de tributos tendem a ter melhor desempenho na perícia, sobretudo em demandas fiscais.

Outro ponto de destaque foi o papel da chamada “justiça gratuita” como porta de entrada para novos peritos. Embora os honorários sejam reduzidos, os especialistas consideram essa etapa fundamental para construção de reputação profissional. “É o momento em que o juiz conhece o seu trabalho. Funciona como um investimento em visibilidade”, explicou Bortolino.

Ainda assim, Ayrton fez um alerta contundente: a atuação exclusiva nesse tipo de demanda não é sustentável no longo prazo. “A justiça gratuita não sustenta um escritório. Os valores são baixos e o recebimento é demorado. É preciso encarar como início de carreira, não como modelo definitivo”, pontuou.

A questão financeira, aliás, foi tratada como um dos principais desafios da profissão. Diferentemente de outras áreas, a perícia contábil envolve prazos longos entre a execução do trabalho e o recebimento dos honorários, podendo ultrapassar seis meses. Isso exige planejamento e capital de giro por parte do profissional.

Além da qualificação técnica, os especialistas enfatizaram a importância do posicionamento estratégico. A escolha da área de atuação — como perícia tributária, trabalhista ou cível — pode influenciar diretamente o volume de trabalho e a rentabilidade. Segundo os debatedores, áreas como a tributária tendem a oferecer honorários mais elevados, ainda que com menor volume de processos.

O networking também foi apontado como fator decisivo para o crescimento na carreira. Mesmo com a digitalização dos processos, o relacionamento com varas judiciais e a construção de reputação junto aos magistrados continuam sendo diferenciais relevantes para obtenção de nomeações.

Ao final do encontro, ficou evidente que a perícia contábil reúne oportunidades concretas, mas exige comprometimento e visão de longo prazo. Em um cenário de crescente judicialização de questões econômicas e fiscais, o perito contábil se consolida como peça-chave — desde que esteja preparado para os desafios técnicos e operacionais da função.

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