Nesta nona edição da coluna “Raízes Contábeis: Uma Jornada Histórica”, apresentamos a primeira publicação de 2026 e convidamos os leitores a refletirem sobre as conexões entre as histórias da contabilidade e da imprensa no Brasil, com foco no século XIX.

Nas últimas semanas, estive lendo alguns livros sobre a História cultural da imprensa no Brasil (1800-1900) e, como pesquisadora da História da contabilidade, considero essencial, para uma compreensão holística da constituição do nosso campo, conhecer mais sobre a trajetória da imprensa no país e as interligações entre os dois domínios. Afinal, assim como a imprensa, a contabilidade pode assumir diferentes finalidades, a depender dos atores sociais que a estruturam.

Algumas dessas intersecções residem no próprio foco das duas áreas: o reporte de informações. Se o profissional da contabilidade atua como um historiador dos fatos contábeis das organizações, a História da imprensa, por sua vez, “investiga vestígios múltiplos por trás das letras impressas, das fotos e da ilustração publicada, sendo possível remontar todo o circuito da comunicação” (Barbosa, 2010). Nesse sentido, assim como a imprensa, a contabilidade também busca retomar fatos passados e investigar pistas, com o objetivo de (re)interpretar informações.

No percurso do século XIX, identificam-se marcos significativos para os dois campos, sendo um deles a chegada da família real ao Brasil, em 1808. Esse evento trouxe avanços consideráveis para a prática contábil, com a instituição formal das partidas dobradas pelos gestores públicos, posteriormente regulamentadas pela Lei nº 4.320 de 1964, e, para a imprensa, representou a criação do primeiro jornal impresso no Brasil, reconhecido pela Corte Portuguesa, por meio da Imprensa Régia, órgão oficial da época.

Avançando um pouco mais no século XIX, encontram-se diversos anúncios publicados em jornais que comercializavam mercadorias, serviços e até mesmo pessoas escravizadas. Por trás das letras impressas, esses anúncios revelavam ideologias, relações de poder e interesses de grupos sociais. Embora nem sempre explícita em uma leitura tradicional, a contabilidade esteve presente nessas relações, seja no cotidiano, com a compra e venda de mercadorias e serviços, seja no registro da venda de pessoas escravizadas. Assim, os interesses eram multifacetados e se relacionavam com o contexto social, econômico e político da época, evidenciando outra conexão entre a contabilidade e a imprensa.

Sob esse prisma, tal como os autores de textos publicados nos periódicos do século XIX, os praticantes da contabilidade também participavam de cenários de discussão política e pública, já que a linguagem contábil foi, recorrentemente, utilizada para fundamentar propostas de caráter coletivo. Os contadores do período utilizavam a imprensa para divulgar informações de interesse do grupo, como anúncios de cursos para aqueles que desejassem seguir carreira como caixeiro ou guarda-livros.

No século XX, mais especificamente em 1º de janeiro de 1912, ocorreu a fundação da Revista Brasileira de Contabilidade, no Estado de São Paulo. A criação dessa publicação representou um grande avanço para a valorização da profissão e constituiu uma poderosa ferramenta de informação para a classe contábil. Atualmente, a revista já possui 113 anos de história e continua sendo um veículo fundamental de disseminação de informações e integração da profissão.

Dessa forma, o resgate da memória sobre a história da contabilidade por meio dos periódicos permite revisitar os vestígios que moldaram aquilo que hoje conhecemos como classe contábil, além de revelar as questões sociais e políticas às quais a profissão esteve (e ainda está) interligada. Afinal, a prática contábil não é neutra.

Atualmente, contamos com o acervo da Hemeroteca Digital Brasileira (https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/), que reúne uma vasta coleção de documentos históricos e certamente guarda memórias da profissão que talvez nunca tenham sido exploradas. Fica aqui, portanto, um convite à classe contábil para conhecer a história da imprensa e, assim, revisitar não apenas as memórias da profissão, mas também registros que demonstram a contabilidade como uma prática influente no contexto em que atua e, ao mesmo tempo, constantemente influenciada por ele.

Nesse sentido, ao analisarmos o intenso fluxo de informações em um cenário tecnológico como o do século XXI, é possível perceber como a atuação da imprensa e da contabilidade está relacionada de diversas formas. Tais relações se manifestam, por exemplo, na produção, disseminação e interpretação de dados que moldam a opinião pública e influenciam a tomada de decisões. A imprensa, ao selecionar e divulgar notícias, constrói narrativas que impactam diretamente a percepção social sobre eventos, instituições e atores políticos. Do mesmo modo, a contabilidade, ao registrar, organizar e reportar informações financeiras e não financeiras, exerce papel central na construção da confiança, na transparência e na responsabilização das organizações diante da sociedade.

Além disso, tanto a imprensa quanto a contabilidade compartilham o desafio de lidar com a credibilidade das informações, sendo constantemente tensionadas entre a imparcialidade e os interesses daqueles que controlam os fluxos comunicacionais e econômicos. Nesse paralelismo, percebe-se que, em diferentes épocas, ambas as áreas não apenas refletem a realidade, mas também a produzem, legitimando discursos e práticas sociais.

Tem interesse por discussões na área da História da Contabilidade e deseja divulgar sua pesquisa nesta coluna?

Entre em contato. Juntos reuniremos esforços para o fortalecimento deste campo de pesquisa no Brasil.

Thais Alves Lira (thaislira@ufpr.br)

Professora do Magistério Superior da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). Doutoranda em Contabilidade no Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCONT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Contabilidade pelo Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCONT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Gestão e Negócios pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR). Bacharela em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Integrante do Laboratório de Educação e Pesquisa Contábil (LEPEC - UFPR).

Referências
Barbosa, M. (2020). História cultural da imprensa. Mauad Editora Ltda.

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