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A sustentabilidade só ganha relevância efetiva para investidores e para a gestão das empresas quando deixa de ser apenas discurso e passa a ser traduzida em dados financeiros confiáveis, comparáveis e capazes de demonstrar riscos, oportunidades e impactos sobre a continuidade dos negócios. Essa foi uma das principais conclusões do Painel 2 – Experiências de Relato, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), com participação de Fabiana Costa, Evandro Zabott e Audrey Barbosa, sob mediação de Onara Lima.

Realizado em formato híbrido, o encontro reuniu experiências de empresas de diferentes setores sobre a construção de relatórios de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e mostrou que a adoção dos novos padrões exige mudanças profundas na governança, na gestão de dados e na integração entre áreas. A discussão destacou também que o contador tem papel técnico fundamental, mas não consegue produzir sozinho um relatório dessa natureza.
Na abertura do painel, Onara Lima chamou atenção para a distância ainda existente entre a expectativa do mercado financeiro por transparência e a maneira como muitas empresas comunicam suas informações de sustentabilidade. Para ela, a tomada de decisão precisa estar apoiada em dados confiáveis, rastreáveis, de qualidade e padronizados. “A sustentabilidade, ainda, nos palcos, é muita alegoria”, afirmou a mediadora, ao defender que a agenda precisa avançar da narrativa para uma abordagem mais pragmática.

Segundo Onara, a integração entre sustentabilidade e finanças é indispensável para que os relatos atendam às necessidades de investidores e demais usuários das informações. A mediadora também reforçou que a governança é o elemento capaz de dar consistência à gestão e evitar que ESG seja tratado como uma iniciativa isolada dentro das organizações.

Sustentabilidade como alavanca de negócios

Fabiana Costa, head de Sustentabilidade do Bradesco, destacou que a agenda de sustentabilidade passou de uma abordagem predominantemente filosófica para uma questão diretamente relacionada aos negócios, aos riscos e às oportunidades. “Hoje o mercado entende a sustentabilidade como uma alavanca de negócios”, afirmou. Para ela, a evolução dos relatos deve permitir que as informações sejam comparáveis, factíveis e capazes de representar o modelo de negócio das companhias.

A experiência do setor financeiro apresentada por Fabiana evidenciou a dimensão do desafio. No Bradesco, segundo ela, a preparação dos relatórios envolve diferentes áreas da organização, além de compliance, riscos, contabilidade e alta liderança. O trabalho começa meses antes da publicação e exige governança permanente sobre os dados.

Um dos principais obstáculos apontados pela executiva é justamente a escassez de informações estruturadas na economia real. Ao abordar as emissões financiadas, Fabiana relatou que o banco identificou uma quantidade reduzida de empresas brasileiras com inventários de gases de efeito estufa disponíveis e auditados. Isso obrigou a instituição a desenvolver metodologias próprias para estimar emissões de sua carteira de crédito.

A consequência, segundo ela, é direta: quanto mais empresas produzirem dados confiáveis, maior será a capacidade do sistema financeiro de avaliar riscos e oportunidades com base em informações reais, e não apenas em estimativas.

Outro ponto destacado foi a necessidade de priorização. Fabiana afirmou que o Bradesco acompanha mais de mil indicadores ESG, mas ponderou: “Uma estratégia de 1.000 indicadores não é uma estratégia”. O foco, explicou, deve estar naquilo que é material para o negócio e relevante para os investidores, como negócios sustentáveis, mudanças climáticas e cidadania financeira.

Relato é resultado de uma construção contínua

A experiência da Irani Papel e Embalagem foi apresentada por Evandro Zabott, gerente de Contabilidade da companhia e responsável pela implementação do Relatório de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade.

Zabott mostrou que a elaboração do relatório não começa quando chega o momento de divulgá-lo. Na Irani, a trajetória teve início há duas décadas, com o primeiro balanço social, e evoluiu para o relato integrado e, posteriormente, para o relatório de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. “O relatório não vai ser construído de uma hora para outra”, afirmou. Segundo ele, é necessário que a empresa tenha histórico, estrutura, governança e informações organizadas ao longo do tempo.

A companhia iniciou ainda em 2004 seu inventário de gases de efeito estufa e, ao longo dos anos, estruturou mecanismos de governança que permitiram chegar à elaboração do novo relatório. Em 2026, a empresa passou a trabalhar com o novo modelo de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, depois de um processo de preparação que envolveu grupos de trabalho, reuniões periódicas e diferentes instâncias de governança.

Para Zabott, quatro pilares são essenciais: governança, estratégia, gestão de riscos e métricas e metas. A gestão de riscos, em especial, precisa estar estruturada porque o relatório deve demonstrar riscos e oportunidades que possam afetar a empresa.

O contador, nesse processo, exerce uma função decisiva, mas não pode ser responsabilizado isoladamente pela construção das informações. “O contador não é responsável sozinho pela construção e pela divulgação do relatório”, afirmou Zabott, ressaltando que a produção do documento depende de informações estruturadas e organizadas em toda a companhia.

Governança e integração entre áreas

A experiência apresentada por Audrey Barbosa, responsável pela agenda de sustentabilidade da JHSF, reforçou a necessidade de aproximar profissionais de sustentabilidade e finanças.

Para Audrey, a tradução dos aspectos de sustentabilidade para padrões financeiros representa uma oportunidade para que a agenda passe a integrar efetivamente a estratégia empresarial. “Essa fluência entre sustentabilidade e finanças é uma grande oportunidade”, afirmou.

A executiva destacou que a JHSF, por atuar em diferentes segmentos, precisa avaliar cuidadosamente quais informações são realmente relevantes para cada negócio. O desafio, explicou, está em identificar a materialidade e levar os temas efetivamente importantes para as discussões com os executivos.

Nesse processo, a capacitação e a formação de equipes multidisciplinares são fundamentais. Audrey defendeu que não se deve esperar que profissionais de contabilidade dominem profundamente todos os aspectos técnicos da sustentabilidade, nem que especialistas em sustentabilidade assumam o conhecimento técnico próprio da contabilidade. A solução, segundo ela, passa pela integração entre competências.

A executiva também afirmou que a sustentabilidade deve ser incorporada à estratégia que a empresa já possui, e não tratada como uma estratégia paralela. “...não ficar inventando coisa paralela, porque aí a gente perde a transversalidade real”, afirmou Onara durante a mediação, ao sintetizar um dos pontos centrais do debate.

Investidor quer materialidade, não excesso de informação

Outro ponto de convergência entre os participantes foi a mudança na demanda dos investidores. Fabiana relatou que, especialmente entre investidores internacionais, a preferência está cada vez mais concentrada em indicadores objetivos e informações materiais para o negócio, em vez de extensos relatórios descritivos.

“Eles não querem ler um relatório de 200 páginas”, afirmou a executiva, explicando que os investidores buscam diretamente os indicadores e questionam as oscilações dos números e os resultados das estratégias adotadas.

No setor financeiro, segundo Fabiana, a atenção dos investidores está especialmente voltada para a evolução da carteira de negócios sustentáveis, as emissões financiadas e os planos de descarbonização. O relato, portanto, precisa responder a perguntas diretamente relacionadas à estratégia e à capacidade de geração de valor da companhia.

A discussão também aproximou sustentabilidade e a própria razão econômica de existência das empresas. Onara destacou que investidores precisam avaliar se determinado negócio será capaz de continuar existindo no longo prazo. Para ela, resiliência empresarial passa necessariamente pela capacidade de mensurar financeiramente riscos e oportunidades.

Informação financeira relacionada à sustentabilidade ganha espaço

Evandro Zabott concordou que a sustentabilidade não pode ser dissociada da geração de resultados. Segundo ele, empresas precisam gerar lucro e resultado para manter suas operações e, a partir daí, contribuir com a sociedade e com o próprio ecossistema de sustentabilidade.

Nesse contexto, avaliou que os relatórios de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade representam uma conexão importante entre as informações tradicionalmente financeiras e os aspectos ambientais, sociais e de governança.

O painel mostrou, assim, que a evolução dos relatos não representa apenas uma mudança de formato ou o cumprimento de uma nova exigência. Trata-se de uma transformação na maneira como as empresas identificam riscos, organizam dados, tomam decisões e dialogam com investidores e demais stakeholders.

Para Onara Lima, essa mudança precisa ser encarada como uma construção permanente. Dados, riscos, oportunidades e prioridades mudam à medida que os negócios, a tecnologia, a economia e o ambiente regulatório evoluem. Por isso, a materialidade financeira precisa ser revisitada continuamente.

O Painel 2 integrou a programação do curso gratuito promovido pelo Instituto dos Contadores do Brasil, voltado à governança corporativa e ao relato de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. A iniciativa reuniu profissionais da contabilidade, executivos, consultores ESG, professores, pesquisadores e estudantes e foi estruturada para discutir, a partir de experiências práticas, os desafios impostos pelos novos padrões de divulgação. O curso está em registro de pontuação no Programa de Educação Profissional Continuada (PEPC) do Conselho Federal de Contabilidade e dos Conselhos Regionais de Contabilidade.

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